terça-feira, 20 de julho de 2010

Inconstância



Inconstância

Doce amargo
não derrete na boca
Claro escuro
Os olhos não vêem
Macio áspero
A pele se agride
Certo errado
A mente se perde
Livre preso
Queria voar
Constante inconstância
Faz- me rir
Faz viver
Faz morrer.


Não sei se você já acordou num dia daqueles em que a luz do sol não te traz alegria, ou pior , o céu está nublado. O tédio é a antecipação da melancolia. As coisas parecem não ter ênfase. A vontade é de dormir e acordar só no dia seguinte, com o pensamento de que este será melhor. Qual a explicação para isso? Acredito não existir, simplesmente alguns dias são melhores, outros não. Consequência da vida. Todo mundo está sujeito a altos e baixos, mesmo que em alguns isso se manifeste de forma mais assídua e visível. As pessoas, você não entende as pessoas. E justo nesse momento elas parecem dizer tudo o que você não quer ouvir, que na maioria das vezes é interpretado por você errôneamente.

Não quero dizer que te amo,
Não posso , é contra- indicação.
Mas eu preciso.
E esse precisar que odeio tanto
Se torna tão intransigente
Que me força a demonstrar
Aquilo que as palavras são incumbidas de não dizer.

A flor e a náusea


Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me''?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida. Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver .
Ração diária de erro, distribuída em casa. Os ferozes padeiros do mal.
ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista. Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento -me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade



quinta-feira, 1 de julho de 2010

Vida

E eu só queria ser a canção
E te acordar com uma linda melodia
Ser a brisa da manhã
O sono da tarde
O acalanto da noite.
Eu queria ser as estrelas
Pra brilhar diante de seus olhos
A essência das flores
Que perfumam o jardim
A arte capaz
De transformar pessoas
Fazer Surgir sentimentos
A criatividade que torna cada dia mais excitante
A novidade, que faz os dias diferentes
O belo, que faz as pessoas sorrirem
O feio, que pode se transformar em belo
A poesia que se escreve sozinha
A luz da lua na escuridão
O cheiro de pão quentinho
Uma risada de criança
O vôo de um passarinho
O descanso do dia-dia
A fórmula do esquecimento
Um relógio parado
O dia
O ar
O som.
Estou definitivamente convencida de que existem momentos que são únicos, mágicos, inexplicáveis. Nada se repete, mas nada é por acaso. É como alguém* disse um dia: "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis".


Nascente
Flávio Venturini

clareia manhã
o sol vai esconder
a clara estrela
ardente
pérola do céu
refletindo
teus olhos
a luz do dia
a contemplar teu corpo
sedento
louco de prazer
e desejos
ardentes


*Fernando Pessoa.